Texto de Estudo

E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz a seu filho primogênito, e envolveu-o em panos, e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem.

Lucas 2:6-7 

INTRODUÇÃO

            De forma detalhada, o autor do terceiro Evangelho descreve como o Senhor começa a pôr em prática Seu plano de Salvação. As profecias começam a se cumprir. O anjo Gabriel, depois da aparição ao profeta Daniel (Dn 8:16; 10:18), entra novamente em cena e traz boas notícias a duas mulheres: ambas conceberiam e dariam à luz, nasceriam dois protagonistas importantes para a História de Israel. Um deles viria para anunciar a chegada do Reino de Deus, e o outro inauguraria tal Reino. O primeiro cumpre a profecia de Malaquias (4:5-6); e o segundo, as profecias apontadas por praticamente todos os profetas do Antigo Testamento.

            Veremos também o momento exato em que Deus revela ao mundo o Seu Filho, “nascido de mulher” e sujeito à lei; Aquele que tinha sido predito e que nasceria em Belém. O estudo de hoje é um relato que contém a época, o lugar e o modo como tudo isso aconteceu.

 

 

A FELICIDADE DE UM LAR PIEDOSO

            O primeiro capítulo de Lucas, a partir do verso cinco, mostra-nos que realmente a obra é fruto de uma “acurada investigação de tudo, desde a sua origem” (1:3). Somente o terceiro Evangelho narra a predição do nascimento de João Batista e faz isso de forma detalhada, pois é nesta seção (peculiar a Lucas) que temos a única informação acerca da origem de João Batista, como veremos na sequência.

            Segundo Lucas, isso ocorreu nos dias de “Herodes, rei da Judeia” (v.5). Este rei, normalmente, é chamado “o Grande”. Ele não era um judeu de nascimento; mas, sim, um idumeu, filho de Antípater. E dizia ser um prosélito, um convertido à religião judaica. Porém, toda a sua vida deixa claro que não apoiava religião alguma, exceto a que pudesse levar à satisfação dos seus interesses e ambições egoístas. Herodes era um instrumento dos romanos. Ele foi oficializado rei dos judeus pelo Senado romano, por sugestão de Antônio, depois que Herodes prometeu-lhe uma grande quantia em dinheiro. Foi nesse tempo que viveu também um sacerdote chamado Zacarias, casado com Isabel, que de igual forma era da linhagem sacerdotal. O anúncio do nascimento de João Batista foi um dia marcante para Zacarias, pois ocorreu quando ele queimou incenso no altar do Senhor.

Oferecer incenso era considerado um grande privilégio, pois um sacerdote não podia oferecê-lo mais de uma vez na sua vida inteira (Mishna, Tamid 5:2). E alguns nunca receberam tal privilégio. Destarte, a ocasião em que Zacarias ofereceu o incenso foi o momento mais importante da sua vida inteira, muito mais por receber do anjo Gabriel a boa notícia de que seria pai. 

            De tantas famílias em Israel, por que Deus escolhera a de Zacarias para ser agraciada com um filho, o precursor que prepararia o caminho para o Messias? Lucas traz alguns detalhes sobre a vida do casal que, mesmo na velhice, teve a felicidade de ter um herdeiro.

O verso seis diz que “ambos eram justos diante de Deus, vivendo irrepreensivelmente em todos os preceitos e mandamentos do Senhor”. Orlando Boyer destaca que esse casal judaico reconhecia a mão de Deus em todos os acontecimentos da vida (v.8). Naturalmente, isso foi orarem por tudo (v.13). Era um lar livre da miséria produzida por bebida forte e que assola tantos lares atualmente (v. 15). Sua vida era irrepreensível; os dois eram aplicados a observar os preceitos das Escrituras (v.6). E suportavam, com paciência, em oração, o desapontamento; assim, transbordaram-se com hinos de louvor quando Deus, por fim, deu-lhes o filho que tanto pediram. O louvor de Zacarias mostra que a mente do velho sacerdote era embebida da Palavra de Deus (vs 67-79). O lar piedoso de Zacarias e Isabel recebeu a bênção do Deus bondoso, Aquele que não se esquece de Seus filhos e que, no momento certo, manifesta Sua fidelidade.

            Somente um lar assim poderia abrigar um menino que não se contaminaria com bebida forte, desde o ventre. Somente um lar assim, cheio do Espírito Santo, poderia criar uma criança que, desde o ventre materno, estava cheio do Espírito de Deus (v.14). Somente um lar cheio da Palavra poderia instruir aquele que pregaria a mensagem, a preparar o povo de Deus para a chegada do Seu Reino (v.15). João Batista iniciaria um poderoso movimento religioso, um grande avivamento entre o povo. Muitos seriam arrancados da alienação de Deus, sendo novamente reconduzidos ao Senhor pela via do arrependimento. E assim aconteceu! Por intermédio de seu ministério, ele abriu o caminho para o tempo messiânico, e isso foi a coroa de sua obra.

 

A MULHER AGRACIADA

            No sexto mês depois da concepção de Isabel, o anjo Gabriel aparece novamente em cena, cumprindo mais uma missão “da parte de Deus” (1:26). Desta feita, ele surge à prima de Isabel, Maria. Lucas, como sempre, procura situar com precisão os locais em que os fatos aconteceram. Segundo o autor, naqueles dias, Maria vivia em Nazaré, uma cidade da Galileia.

            O nome “Maria”, no hebraico “Miriã” (Ex 15:20), quer dizer “exaltada”. E o nome convinha-lhe. Eis a humilde e desconhecida virgem sendo exaltada acima de todas as outras filhas da casa de Davi. A respeito de Maria, Lucas traz alguns detalhes:

            Ela vivia em “uma cidade da Galileia, chamada Nazaré”. Era uma região remota da nação, desprovida de reputação de religiosidade ou cultura. Por ser vizinha dos pagãos, era chamada de “Galileia dos gentios”. O fato de Cristo ter Seus familiares residindo ali dá a entender uma graça reservada ao mundo gentílico. 

            Era uma virgem desposada. Maria ainda era virgem e estava noiva de José. Os noivados ou contratos de casamento entre os israelitas, nos tempos bíblicos, eram mais significativos e representavam um laço mais forte do que na atualidade. A lei mosaica considerava a infidelidade sexual de uma noiva como adultério, e ela era punida pela transgressão (Dt 22:23-24). Frequentemente existia um intervalo de meses entre o noivado e o casamento; mas, ainda assim, o noivado já representava um compromisso que só poderia ser rompido pelo divórcio. Esse fato é exemplificado pela decisão de José de divorciar-se de Maria, antes de saber a natureza da sua concepção (Mt 1:19), embora ele e Maria ainda não estivessem casados.

            Não sabemos o que Maria estava fazendo quando Gabriel apareceu, mas o que fica claro é que as primeiras palavras do anjo causaram-lhe certo espanto (v.29). Sobre a saudação do anjo e as primeiras palavras referidas a Maria, Boyer comenta:

“Salve agraciada (v.28): A oração que começa: “Ave Maria...” é grande perversão das Escrituras. Note-se que o anjo saudou a Maria, não orou a ela. Gabriel saudou-a como uma filha de Deus; não orou a ela como uma deusa. A tradução “Deus te salve, cheia de graça...” não é tão fiel ao sentido original. Além disso, dá lugar a uma grande perversão da verdade. Maria não estava “cheia de graça” que nos pudesse conceder, mas de graça que recebera na ocasião (v.30.) Não recebia a honra porque a merecia, mas pela graça divina. Não Maria, mas o Senhor merece o louvor pela graça que Ele concedeu à virgem. Ela era “bendita entre as mulheres”; mas, afinal de contas, era ainda uma mulher. Apesar de tudo que recebeu do Senhor, permaneceu Sua serva (v.38). Bendita és tu entre as mulheres (v.28) - Orígenes diz que isso significa que foi acrescentada a Maria a graça extraordinária antes do seu nascimento. Mas, mesmo que fosse verdade, nem por isso teria Maria nascido sem pecado. João Batista recebeu o Espírito Santo antes de nascer, contudo não nasceu imaculado. Tanto a concepção de Maria como sua assunção aos céus têm base somente nas declarações dos homens, nunca na Palavra de Deus”.

 

O NASCIMENTO DE JESUS (2:1-20)

            O início do capítulo dois traz informações sobre á época em que Jesus nasceu, onde isso ocorreu e de que forma se deu. O Evangelho de Lucas, em sua riqueza de detalhes, aponta informações importantes que descrevem não apenas a precisão de um teólogo historiador ao narrar os fatos, mas também mostra a perfeição de Deus, soberano sobre todas as coisas, que orquestra cada fato segundo Sua vontade.

            O primeiro verso do capítulo diz que quem governava Roma, nos dias do nascimento de Jesus, era o Imperador César Augusto. Ele nascera em Roma, em 63 a.C., e morreu no ano 14 de nossa era. Foi o primeiro Imperador romano com o nome de Augusto. O título foi-lhe conferido pelo Senado para significar que era digno de veneração religiosa.

Cristo nasceu no tempo em que o Império Romano estava na sua maior glória, dominando o mundo desde a Pártia, de um lado, até a Bretanha, do outro. Chamava-se “O império de todo o mundo”. Era o tempo da quarta monarquia, descrito pelo profeta Daniel (Dn 2:36-45) que assim diz: “Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (Dn 2:44). A perfeição do plano de Deus manifestou-se em dias assim. No tempo em que o reino dos homens estava no seu auge, estabelecido, o Senhor envia o Messias para inaugurar o maior de todos os reinos: o Reino do Ungido de Deus (Sl 2), um reino que não tem fim. Foi nos dias em que o Imperador era adorado que o Senhor levantou o “Filho do Homem”, Aquele que é o Rei do reis, único digno de adoração.

            César Augusto foi, talvez o mais significativo soberano. E destacou-se pela boa administração. Em seus dias, “publicou um decreto, convocando toda a população do império para recensear-se” (v.1). O motivo do senso é ainda debatido e não é nosso objetivo sanar a questão. Ao que parece, o senso foi decretado por César Augusto, mas os moldes do alistamento seguiram o costume de cada povo. Embora esse registro fosse resultado de um decreto imperial de Roma, o costume de que cada pessoa deveria ir à cidade dos seus antepassados não era romano, mas judeu. Parece que se permitia alguma liberdade na maneira como se realizava o alistamento. Na terra dos judeus, por conseguinte, o arrolamento foi por “famílias”.

            Tudo isso parece apenas dados históricos e podem até nos fazer pensar que foi coincidência Jesus ter nascido naquele momento. No entanto, na verdade, tudo fazia parte do plano de Deus. A profecia dizia que o Messias viria de Belém (Mq 5:2), mas José e Maria viviam em Nazaré, uma cidade da Galileia. Então, o decreto romano ordenando o recenseamento foi o mover de Deus, levando-os até Belém, a cidade de todos aqueles que eram da casa de Davi. Assim foi com José e Maria. Belém significa “casa de pão”; um lugar adequado para o nascimento dAquele que é o “Pão da vida”, o “Pão que desceu do céu”. Mas não era tudo; Belém foi a cidade de Davi, onde ele nasceu; portanto, ali deveria nascer O que era Filho de Davi.

            Os 170 quilômetros de viagem de Nazaré a Belém foram muito difíceis para Maria, que se encontrava no fim da gestação. O esforço da caminhada, a precariedade dos abrigos noturnos, tudo isso ela teve de suportar em avançado estado de gravidez! Depois de chegar a Belém, contudo, o sofrimento começou de fato! Aquele pequeno local pululava de gente, e era absolutamente impossível conseguir um abrigo para a noite. O narrador diz que não havia lugar para eles na hospedaria”. (v.7)

Quantos lamentos e súplicas ardentes devem ter alçado o céu para que Deus proporcionasse um abrigo ao jovem casal que se encontrava em uma aflição ainda maior, em vista da iminência do parto. O único lugar que conseguira para repousar foi um cômodo inferior da estalagem, um pavimento no qual se encontrava o estábulo para os animais. Ali também se podia guardar, temporariamente, a carga que a caravana transportava. E também ali se alojavam os criados incumbidos dos animais de carga (jumentos, camelos). Foi nesse tipo de “estábulo” que José e Maria encontraram alojamento quando já não havia lugar na estalagem propriamente dita; e foi neste lugar que nasceu Jesus. O Rei humilde nasceu em um lugar humilde e teve como berço uma manjedoura; dessa maneira, Jesus desprezou toda a glória deste mundo. Assim, ensina-nos a fazer o mesmo.

            O nascimento de Jesus aconteceu de maneira muito simples e, de certa forma, oculta aos homens, mas não se podia esconder o que não deveria ser escondido. Todavia, Deus não quis revelar isso aos sábios ou poderosos; por isso, promulgou a notícia a pastores da região, e a notificação do anjo foi: “Hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”(v.11).

           

CONCLUSÃO

            Nasceu Jesus, o “Filho do Homem”. Seu nascimento foi a maior notícia que a humanidade recebera, desde os tempos antigos. Naquele dia, os pastores receberam a “boa notícia”. Mas não era apenas uma informação; tratava-se de uma “boa-nova de grande alegria” (v.10). Alegria não só para os pastores, mas para todo o povo; podemos dizer que para o mundo inteiro. Nasceu o “Filho do Altíssimo”, Aquele que deu início a um Reino que não tem fim (1:32,33). Os pastores foram até Jesus e voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto. A vida daqueles homens nunca mais foi a mesma; a História da humanidade nunca mais foi igual. Na humilde estrebaria, nascera o homem que dividiu a História e duas partes: antes d’Ele e depois d’Ele.

Fonte https://pib7joinville.com.br/estudos/entendendo-e-vivendo/4069-o-nascimento-de-jesus-quinta-feira-3.html

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